Servindo os dispersos: como algumas aulas de português viraram uma missão de vida

Alunos estudando português em volta de uma mesa redonda

No início de 2016, durante um culto na Igreja Presbiteriana da Vila Operária (IPVO), em Maringá, o Pastor Ivo Beque compartilhou uma necessidade urgente. Centenas de haitianos tinham chegado à cidade em busca de trabalho e de uma nova chance. Muitos não conseguiam se comunicar, acessar serviços públicos ou se integrar. O pedido era simples: voluntários para ensinar português.

Naquele dia, eu e a Dinalva sentimos Deus falar claramente aos nossos corações. Nos colocamos à disposição. Não imaginávamos que aquela decisão mudaria completamente o rumo das nossas vidas.

Quem eram aqueles alunos

Depois do terremoto de 2010, começou um grande movimento de haitianos para o Brasil. Dois em cada dez foram para o Paraná, atraídos por vagas na construção civil, no comércio, nos serviços e na agroindústria. Em 2017, estimava-se que havia mais de quatro mil só na região de Maringá.

Chegando aqui, a primeira barreira era a língua. Depois vinham a moradia (quem aceita alugar sem fiador?), a saudade da família, a cultura diferente, os salários baixos e as jornadas longas. Havia uma política de entrada, mas nenhuma de acolhimento.

Nossas primeiras turmas eram de homens e mulheres que passavam o dia em frigoríficos, obras e outros serviços pesados. À noite, cansados, vinham estudar. Sonhavam com um emprego melhor, em trazer a família para o Brasil, ou simplesmente em conseguir conversar no mercado, no posto de saúde ou na escola dos filhos.

Muito além da sala de aula

Logo percebemos que ensinar português era só uma pequena parte da necessidade. A sala de aula virou lugar de acolhimento, de escuta e de amizade. Começamos a entregar currículos, a acompanhar consultas médicas, a buscar tradução de documentos. Um casal de haitianos queria se casar, e corremos atrás de uma tradutora autorizada para os papéis.

Em 2017, abrimos uma nova turma num espaço cedido pela Assembleia de Deus Ministério Madureira, e começamos uma célula semanal nas casas, com leitura da Bíblia, oração e cânticos em crioulo e em português.

Pouco depois chegaram pessoas de outras nacionalidades. Sírios fugindo da guerra. Palestinos buscando segurança. Iemenitas escapando de conflitos. Paquistaneses, bengaleses, africanos de vários países, latino-americanos. Cada família carregava uma história de perdas e de esperança.

Conhecemos pais que não viam os filhos havia anos. Mães que chegaram sozinhas e lutavam para trazer os filhos que ficaram para trás. Crianças que precisavam ser matriculadas na escola, mas cujos pais não sabiam como, por causa da língua ou dos documentos.

As necessidades cresceram rapidamente. Passamos a auxiliar as famílias em:

  • Regularização migratória
  • Traduções juramentadas
  • Emissão de documentos
  • CPF e carteira de trabalho
  • Matrículas escolares
  • Atendimento em hospitais
  • Acesso a serviços públicos
  • Procura por moradia
  • Busca de emprego
  • Reunião familiar
  • Orientação jurídica e social

Acompanhávamos famílias em hospitais, escolas, cartórios, delegacias e órgãos públicos. Muitas vezes, éramos a ponte entre eles e as instituições brasileiras.

Reunificação familiar e novos começos

Outra necessidade surgiu rápido: reunir famílias. Gente que tinha conseguido chegar ao Brasil, mas deixara esposa, marido, filhos ou pais em situação de risco. Passamos a orientar processos, preparar documentos, buscar traduções juramentadas e mobilizar redes de apoio para trazer esses familiares.

Ao longo dos anos, vimos histórias extraordinárias. Pessoas que chegaram sem falar uma palavra de português se tornarem profissionais respeitados. Crianças assustadas se destacarem na escola. Famílias separadas pela guerra se abraçarem de novo. Refugiados encontrarem um lar, abrirem negócios e reconstruírem os seus sonhos.

O chamado era acolher

O que começou com algumas aulas de português virou um ministério de acolhimento aos dispersos. Cada visita, cada tradução, cada matrícula e cada documento preenchido eram sementes de algo que cresceria com os anos: o Instituto Ethnos Brasil.

Hoje entendemos que o chamado nunca foi só ensinar português. Era acolher pessoas. Caminhar ao lado de quem foi espalhado pela guerra, pela pobreza, pela perseguição e pela busca de um futuro melhor. E cada família nos ensinou que, seja qual for a língua ou a nacionalidade, os sonhos são os mesmos: viver em paz, proteger os filhos e encontrar um lugar para chamar de lar.

“Eu era estrangeiro, e vocês me acolheram.” Mateus 25:35

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Missionários há 24 anos, hoje no Paraná, servindo migrantes e refugiados. Conheça nossa história

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